
O primeiro contato que eu tive com o conceito cristão de morte aconteceu quando peguei um livro ilustrado da minha irmã. Eu não devia ter mais que cinco ou seis anos (meu avô materno já havia morrido, mas não me lembro de ter sentido a perda, senti apenas falta dos meus pais que nos deixaram no apartamento da vizinha). Nesse livro havia uma passagem ilustrada com um cortejo: um dia nublado, uma fila de pessoas que não passavam de sombras muito enegrecidas seguindo um caixão igualmente negro por uma colina. Ali eu entendi que a morte era soturna, moldada em sombras, um castigo imposto por algo maior. Anos mais tarde fui me encantando pelo que antes me parecia tão assustador e fascinante. Quando eu visitava cidades históricas com o meu pai insistia em conhecer os cemitérios (isso sempre pareceu divertir o meu velho), ver as virgens de pedra, ler os epitáfios. Eu ainda estava no terreno da morte cristã, mas ali já não havia peso - só havia a saudade dos vivos que viam seus mortos seguirem um caminho que para eles era inescrutável. Quando uma grande amiga perdeu o seu pai ela me ligou no trabalho, saí de lá correndo, comprei um maço de cigarros (senti que ela precisava, e eu estava certo) e fui lá oferecer a única coisa que realmente podemos ofertar aos que sentem a morte próxima: afago. Porque ela é irremediável, imponderável - a morte, tal como a vida, não pede passagem. Ela apenas se apresenta no seu devido momento e diz "Venha, estou aqui por você". No enterro do pai dessa amiga ela me sussurrou nos ouvidos "Daher, a morte não é a Morte do Neil Gaiman", eu respondi que era sim, mas que ela não precisava pensar nisso naquele momento, que devia sentir a dor. Porque a dor é iminente e tentar preencher a dor com falsa alegria é tolice. A vida é feita de grandes mortes, e pequenas também. Rompimentos, transformações, o susto que é sair de um terreno seguro para um terreno nunca dantes adentrado... as pequenas mortes se espalham pela vida e potencializam a caminhada, nos lembram da nossa própria efemeridade, nos obrigam a exercitar a difícil arte do desapego. Desapegar-se pode ser tão doloroso, é isso que eu senti quando - tempos depois da morte do pai dessa amiga -, vi uma tampa de caixão se fechando sobre a minha vó que eu tanto amo. E ali eu chorei, e pensei que nunca mais veria minha avó cozinhando com sua touquinha de meia, nunca mais ouviria ela dizendo para mim "ô pecadôr!" quando eu dissesse algo que Maria Mãe de Deus achasse politicamente incorreto. Eu chorei por tudo aquilo que eu não mais teria dela, esquecendo - nesse momento cego e extremamente importante da dor - que tudo aquilo que eu TIVE dela é meu, e isso sobrevive até hoje. Quando eu uso as camisas ou os óculos do meu avô sinto um pedacinho dele ali, mas esses óculos devem sentir uma certa revolta porque nunca mais assistiram a uma partida do Atlético, só assistem filmes e só lêem estranhezas. Quando saíamos do cemitério naquela tarde em que minha avó foi enterrada meu pai relembrava histórias e sorria. Eu disse a ele "isso é o que fica, pai" e ele fez que sim. Nas pequenas mortes eu vejo o mesmo processo, os mesmos sentimentos: a negação que faz com que relutemos que aquilo foi embora, a dor pulsante que nos cega ao ponto de acreditarmos que nunca mais sentiremos alegria, que não seremos iguais (e não seremos, goste você ou não), a ausência daquilo que foi tão significativo e trouxe tanto sentido... Não. Não consigo temer a morte, não consigo imaginar a vida sem ela. São a mesma, a mesma moeda que jogada para o alto reflete luz e sombras. Aceitar as mortes é aceitar as dificuldades do viver, do seguir. E navegar é impreciso, que me desculpe o grande Pessoa.

