
Za za zu : Borboletas no estômago; frio no estômago; euforia romântica
Hoje associamos a idéia de paixão ao coração. No período elizabetano associavam ao fígado. Eu peço licença para associar ao estômago... Quem não ama aquela sensação de estar congelado diante de alguém que de um minuto ao outro parece se destacar de todas as criaturas por quem você se interessou? Quem não deseja manter essa mesma sensação cristalizada, antes que ela desapareça na velocidade em que surgiu? Lembro dessa cena de um seriado: um balão vermelho em uma noite, voando por entre prédios de uma grande cidade; ali refletiam sobre a necessidade que nós temos em encontrar O grande amor, a outra metade, a tampa da panela, culminando em uma espécie de "moral da história": alma gêmea de cu é rola! O mais difícil é amar o "você" que você enxerga no espelho. Me peguei relembrando um aniversário meu de anos atrás, em que ganhei um balão vermelho e caminhei com ele pela avenida vazia - a solidão acariciava, mas existia ali o desejo pelo za za zu. Ontem vi um balão vermelho sendo puxado num bloquinho de carnaval - Amélie e eu dançávamos, e ríamos de nossas últimas incursões no campo da atração. Rindo pra não chorar? Quase não choro, ao contrário dela. Mas rir de desgraça é como dizer "eu vou morrer se fulano(a) não me amar" - vai nada, seu trouxa! Não faz diferença, mas às vezes é tão bom dizer. Ora penso que essa idéia de amor romântico nunca esteve tão em alta, ora penso que nunca esteve tão ultrapassada. Me divirto quando penso que há algumas décadas esse conceito podia ser usado com mais intensidade; as pessoas não dispunham de redes sociais e toda essa parafernália tecnológica para conhecer alguém. Se os pombinhos se conhecessem por acaso trocariam número de telefone (fixo), ou cartas?, aguardariam ansiosamente um encontro (cineminha, jantar, passeio no parque). Só então se conheceriam de fato, descobrindo aos poucos as nuances do outro, suas peculiaridades, seus gostos, os detalhes dos gestos - tudo isso envolto pelo za za zu. Talvez eu esteja fantasiando uma realidade que nunca foi a minha (a probabilidade de isso acontecer é imensa, eu sei), mas não deixa de ser curioso que nesse mundo onde as possibilidades são incontáveis encontrar alguém que mereça o rótulo de "especial" e provoque esse frio no estômago parece tão difícil, quando deveria ser exatamente o oposto. Encontrar sexo (bom ou não) é mais fácil que entrar na Obra depois de meia-noite. Mais fácil ainda é descobrir tudo a respeito de quem te interessa à primeira vista [basta adicionar fulano(a) no Facebook e até sua árvore genealógica vai estar lá]. Parece simples, não? "Oi, te vi em tal lugar, resolvi te adicionar. Topa uma cerveja? Oi, prazer. Radiohead? Acho bom (vi que você gosta no seu perfil, mas você não precisa saber disso). Jarmusch? Adoro! Ele é tão autoral..." E assim vamos pulando essas etapas que supostamente deveriam ser gradativas e o que deveria ser intenso se torna banal - a ansiedade do za za zu é quase que automaticamente substituída por uma urgência, já que algo acontece nesse percurso e quando percebemos estamos selecionando e sendo selecionados como naqueles quadros de namoro do Silvio Santos. "Eu quero alguém que leia Proust, que goste de cinema de arte, que goste de rock progressivo e tenha tatuagem na bunda, que tal?" A procura se torna caça, e o ser "especial" passa de sujeito a simples objeto, e caso algum pré-requisito não satisfaça, qual o problema? É só voltar para o Facebook ou para a baladinha da semana e outro ser "especial" vai estar lá me esperando. Talvez a grande pergunta aqui seja: o que buscamos quando pensamos/desejamos o tal za za zu? Até onde estamos dispostos (e tão importante quanto: até onde o outro está disposto?) a enxergar quem se apresenta com esse propósito? Eu anseio por reciprocidade... encontrar alguém que me faça sentir frio no estômago e em quem eu provoque o mesmo efeito. Amélie está certa quando me diz que dá medo toda essa busca (a falta de reciprocidade assusta, machuca, mexe na maneira como nos vemos, atinge nossos pontos mais frágeis). Mas acho que estou certo quando digo que o jeito é se arriscar, continuar procurando - ou como ela sabiamente disse mais tarde: "Melhor mesmo é não procurar." Procurando ou não, talvez devamos complicar menos, sendo mais íntegros com aqueles que se apresentam invadidos pelo za za zu. De uma coisa eu sei: se peixe morre pela boca eu quero é morrer pelo estômago...
Eu estou mais preocupado hoje com o que eu comi ontem e ta me fazendo enjoar, hehehe... digno cada palavra escrita, cada palavra sentimento.. continuo por favor.. é um acalento a minha alma perdida, rsrsr...
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